Como calcular preço de venda de doces e bolos (passo a passo com exemplo)

“Somo os ingredientes e multiplico por dois.” Essa é uma das formas mais comuns de precificar na confeitaria — e uma das que mais fazem a confeiteira trabalhar muito e ganhar pouco. Neste guia você vai aprender como calcular preço de venda de doces e bolos de um jeito que cobre todos os custos, paga o seu trabalho e ainda deixa lucro. No final há um exemplo completo, do ingrediente ao preço final.

A fórmula em uma linha: Preço de venda = custo da unidade ÷ (1 − % de custos fixos − % de taxas − % de lucro). Os percentuais são sobre o preço de venda, não sobre o custo.

O que entra no preço de um doce ou bolo

O Sebrae lista os componentes que precisam estar no preço de qualquer alimento: os ingredientes, as despesas operacionais (aluguel, água, energia, gás, salários), os custos indiretos (embalagens, marketing, taxas, desperdício) e a margem de lucro. Para organizar, vamos dividir em quatro grupos:

  1. Custo direto da receita: ingredientes, de acordo com a quantidade usada.
  2. Custos variáveis por unidade: embalagem, forminhas, etiqueta, fita, um valor estimado de gás e energia da produção e perdas.
  3. Custos fixos do mês: o que você paga vendendo muito ou pouco — DAS, internet, aluguel, parte da conta de luz e o seu pró-labore (sim, o seu trabalho é um custo).
  4. Percentuais sobre a venda: taxa da maquininha, comissão de aplicativo de entrega e o lucro que você quer ter.

Passo 1: monte a ficha técnica da receita

A ficha técnica lista cada ingrediente, quanto você paga pela embalagem e quanto usa na receita. O custo de cada ingrediente sai por uma regra de três:

Custo do ingrediente = (preço pago ÷ quantidade da embalagem) × quantidade usada

Exemplo: se 1 kg de farinha custou R$ 6,00 e a receita usa 300 g, o custo é (6,00 ÷ 1.000) × 300 = R$ 1,80.

Abaixo, a ficha de um bolo de chocolate com cobertura de brigadeiro. Os preços são ilustrativos — use sempre os valores que você pagou nas suas últimas compras.

IngredienteEmbalagem (preço)Usa na receitaCusto
Farinha de trigo1 kg (R$ 6,00)300 gR$ 1,80
Açúcar1 kg (R$ 5,00)250 gR$ 1,25
Ovos12 un. (R$ 12,00)4 un.R$ 4,00
Chocolate em pó200 g (R$ 9,00)100 gR$ 4,50
Leite1 L (R$ 5,00)240 mlR$ 1,20
Óleo900 ml (R$ 8,10)120 mlR$ 1,08
Fermento100 g (R$ 3,20)15 gR$ 0,48
Leite condensado395 g (R$ 7,00)395 gR$ 7,00
Creme de leite200 g (R$ 3,50)200 gR$ 3,50
Granulado150 g (R$ 4,50)50 gR$ 1,50
Total dos ingredientesR$ 26,31

Passo 2: some embalagem, gás e perdas

Agora acrescente o que vai junto com cada bolo. No exemplo: caixa e base laminada (R$ 4,50) e uma estimativa de gás e energia do forno (R$ 2,00). Se você costuma perder parte da produção — um bolo que solou, docinhos que quebraram —, inclua uma margem para perdas também.

Custo da unidade no exemplo: R$ 26,31 + R$ 4,50 + R$ 2,00 = R$ 32,81.

Passo 3: transforme os custos fixos em percentual

Os custos fixos não aparecem na receita, mas precisam ser pagos pelas vendas. A forma mais simples de distribuí-los é calcular quanto eles representam do seu faturamento médio:

% de custos fixos = custos fixos do mês ÷ faturamento médio do mês

Exemplo ilustrativo: uma confeiteira tem R$ 2.400 de custos fixos por mês — R$ 1.800 de pró-labore e R$ 600 com DAS, internet, parte da energia e material de limpeza — e fatura em média R$ 8.000. Os custos fixos representam 2.400 ÷ 8.000 = 30% do faturamento.

Lembre-se de incluir o DAS: em 2026, para quem vende produtos (comércio ou indústria), ele é de R$ 82,05 por mês. Veja todos os valores em valor do DAS MEI 2026.

Passo 4: liste as taxas sobre a venda

Taxa da maquininha, do link de pagamento ou do aplicativo de delivery é cobrada como porcentagem do preço. Elas variam muito conforme o contrato, o plano e a forma de pagamento (débito, crédito à vista, parcelado), então confira as taxas do seu contrato. Se você vende por canais diferentes, pode ter um preço para venda direta e outro para aplicativo. No exemplo, vamos usar 5%.

Passo 5: defina a margem de lucro

A margem de lucro é o que sobra para o negócio depois de pagar tudo — inclusive o seu pró-labore. É ela que permite trocar a batedeira, investir em formas novas e enfrentar meses fracos. Segundo o Sebrae, em alimentos preparados a margem costuma girar entre 20% e 40%, dependendo da complexidade do produto, dos ingredientes e do público. No exemplo, como o pró-labore já está nos custos fixos, vamos usar 15%.

Passo 6: aplique a fórmula do preço de venda

Esse método é conhecido como markup divisor. Os percentuais saem do preço final, por isso você divide em vez de multiplicar:

Preço de venda = custo da unidade ÷ (1 − % fixos − % taxas − % lucro)

No exemplo: R$ 32,81 ÷ (1 − 0,30 − 0,05 − 0,15) = R$ 32,81 ÷ 0,50 = R$ 65,62. Arredondando, o bolo sai por R$ 66,00.

Conferindo: de R$ 66,00, saem R$ 32,81 de custo da unidade, R$ 19,80 para os custos fixos (30%) e R$ 3,30 de taxa (5%). Sobram R$ 10,09 de lucro — cerca de 15%, como planejado.

Por que “ingredientes × 2” dá prejuízo

Pelo método do “dobro”, o mesmo bolo sairia por R$ 26,31 × 2 = R$ 52,62. Parece bastante, mas veja o que acontece: tirando R$ 32,81 de custo da unidade, R$ 15,79 de custos fixos (30%) e R$ 2,63 de taxa (5%), sobram só R$ 1,39 — menos de 3% de lucro. Em um mês ruim, ou com um ingrediente que subiu, esse bolo passa a dar prejuízo sem você perceber.

Outro erro comum é aplicar a margem sobre o custo: R$ 32,81 + 30% = R$ 42,65. Como os custos fixos e as taxas não entraram na conta, esse preço nem cobre o negócio.

E para docinhos, fatias e bolos por quilo?

  • Docinhos: calcule a ficha técnica da receita inteira, divida pelo rendimento (quantas unidades saem) e some a forminha de cada um. Depois aplique a fórmula e multiplique por 100 para chegar ao preço do cento.
  • Fatias: divida o custo do bolo inteiro pelo número de fatias que ele rende de verdade (considerando as pontas e perdas) e some a embalagem individual.
  • Bolo por quilo: faça a ficha técnica de um bolo de referência, pese o resultado final e divida o custo pelo peso.

Compare com o mercado (mas não copie)

Depois de calcular, pesquise o preço de produtos parecidos na sua região. Se o seu preço ficou muito acima, procure onde reduzir custos — compras em maior quantidade, menos perdas, embalagem mais barata — ou destaque o que torna seu produto diferente. Se ficou muito abaixo, talvez você esteja deixando dinheiro na mesa. O que não vale é copiar o preço da concorrência sem saber o seu custo: ela pode ter estrutura diferente, ou estar no prejuízo.

Revise os preços com frequência

Ingredientes como ovos, chocolate e leite condensado mudam de preço com frequência. Atualize a ficha técnica sempre que fizer compras grandes e revise os preços pelo menos a cada poucos meses. Acompanhar as vendas e despesas no seu fluxo de caixa mostra rapidamente se a margem está encolhendo. E lembre: todo o faturamento conta para o limite do MEI — se as encomendas crescerem, confira o seu na calculadora do limite do MEI.

Perguntas frequentes

Qual a fórmula para calcular o preço de venda de doces e bolos?

Preço de venda = custo da unidade ÷ (1 − % de custos fixos − % de taxas − % de lucro). O custo da unidade inclui ingredientes, embalagem, gás e perdas. Os percentuais são calculados sobre o preço de venda.

Qual margem de lucro usar na confeitaria?

Segundo o Sebrae, em alimentos preparados a margem costuma ficar entre 20% e 40%, dependendo da complexidade do produto, dos ingredientes e do público. O importante é que seu pró-labore já esteja incluído nos custos.

Posso calcular o preço multiplicando os ingredientes por 2 ou 3?

Não é recomendado. Esse método ignora embalagem, custos fixos, taxas e o seu trabalho. Em um exemplo com custos fixos de 30% e taxa de 5%, o bolo precificado pelo “dobro” teria menos de 3% de lucro.

Como colocar o meu trabalho no preço do bolo?

Defina um pró-labore mensal (sua retirada) e inclua esse valor nos custos fixos do mês. Ao transformar os custos fixos em percentual do faturamento, o seu trabalho passa a ser pago por todas as vendas.

De quanto em quanto tempo devo revisar o preço?

Sempre que os ingredientes principais subirem e, no mínimo, a cada poucos meses. Atualize a ficha técnica com os preços das últimas compras e recalcule.

Fontes consultadas

Informações conferidas em 10 de outubro de 2026. Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de um contador.

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